ADRIANA, 21 ANOS
Obviedades, turistas:Em Veneza, um famoso vidro de Murano pode ser muito mais barato do que se comprado na Ilha de Murano. Furtos ocorrem em todas as cidades visitadas por turistas. O sangue inocente é quente e o chão veneziano, úmido.E o perigo, ele não vem dos furtos na multidão. Preciso anotar todos os detalhes.Eu não consigo parar de sorrir.
Alencar, rindo no aeroporto, enquanto eu comprava chocolate com recheio de licor, ele dizendo que o álcool ali não seria o bastante pra me acalmar. Se eu quisesse, ainda dava tempo para uma garrafa de vinho na quente cidade do Rio de Janeiro, apenas para que a “onda” me relaxasse, nervosismo, minha primeira viagem internacional.Alencar. Meu único conhecido aqui, lindo vizinho do apartamento, 21, 1,85-90m, pele branquinha, macia, brincalhão e desprendido como um monge budista. Voz rouca, estimulando as maiores devassidões ao falar do preço do condomínio. Lábios, lábios pequenos e grossos. O que ele saberia fazer com eles? Corpo, relevos, a mais provocante aula de Anatomia, coxas grossas, praticando esportes radicais com seu passaporte sempre à mão, e o melhor, esse monge não havia feito voto de celibato algum. Havia dois meses que eu queria dizer a ele. Mas eu era só uma menina pobre da cidade gaúcha de Santa Maria. Então paguei os chocolates com licor à guria do caixa.Ele nunca tinha feito nenhuma insinuação. Quando a hora do embarque foi avisada, disse que eu iria ficar feliz com a viagem e iria querer fazer várias outras.Colando o corpo masculino dele no meu, disse, rindo, que se eu demorasse muito, ele iria me buscar.O perfume amadeirado dele naquele abraço foi algo que eu devia ter aproveitado.Melhor dizer pra ele. Vou dizer. Vou dizer o que quero.Então embarquei.
QUATRO DIAS
Estávamos no terceiro dia do congresso internacional, empresa de alimentos, quando aproveitei nossa hora de almoço pra mergulhar meus olhos no rio Tibre, ou Tevere, como chamam por lá, que já banhava a orgulhosa Roma milhares de anos antes da minha chegada. Eu deveria então comemorar o rio já envolvido na lenda da fundação de Rômulo e Remo e preparar dois relatórios durante os quatro dias em que ficaríamos em Roma. Era a minha missão.Estagiária Administrativa, 21 anos, iniciando estudos em italiano, recentemente me mudara da cidade gaúcha de Santa Maria para a internacionalíssima Rio de Janeiro. De uma família que não deixava eu ir à padaria porque o perigo das cidades grandes poderia estar atingindo Santa Maria, diretamente para as noites cariocas desertas chegando tarde do trabalho, para o apartamento que eu acabara de alugar. A vida tinha mudado muito rapidamente, ainda estava tentando alguma adaptação.E no meio de tudo isso, no quarto dia nossa equipe, com Machado (50-55, 1,75m, branco, olhos penetrantes e bigode debochado), Quintana (idem, 1,70m, branco, brincalhão, lento e rechonchudo), Castro (28, 1,85-90m, branco, noivo, magro e reservado) e dos Anjos, 42, 1,85-90m, moreno, sorridente, meu chefe, fomos informados que a equipe brasileira, por ter batido uma determinada cota, receberia dois dias em Veneza. Veneza! Estávamos pra testemunhar o Carnaval de Veneza! Mas que tipo de vida eu estava levando?! Um conto de Fadas...Machado dizendo que havia alguma vantagem em ser efetivado por aquela empresa. E entendi, eu era estagiária, apenas, dos Anjos, vendo minha frustração aparente, agiu com rapidez, entrando em contato com a agência de turismo e pagando minha parte no evento! Inacreditável! Dos Anjos.Ele sempre foi tranquilo. E muito respeitador, mas seu cuidado paternal por eu ser de cidade menor, era algo que os outros tinham percebido. Machado percebeu.
ÚLTIMA NOITE EM ROMA
Então a hora combinada de ir a um telefone público havia chegado.E, no salão de um prédio público, vários telefones em aproximados 300m2, eu deveria ser informada onde eu ficaria a postos para coletar dados sobre um traficante de escravas brancas do Leste Europeu, agora, atuante na Espanha, que estava para se deliciar em Veneza na lua-de-mel com uma de suas duas amantes fixas. Atendi. Fui informada de que ele descobrira que estava pra ser caçado como um animal, então havia mudado de rota. Então minha segunda missão havia sido cancelada. Naquele telefone público, onde centenas de pessoas ligavam em risos deslumbrados para seus parentes, eu sabia que o agente que me contatava não poderia estar tão próximo, mas, por diversão, rastreei o local, encontrando Castro e Machado, em aparelhos a dez metros de mim. E continuei olhando. Todos que seguravam um telefone. Leitura labial, desde os 12 anos achei que, pra me tornar agente especial, como nos filmes, eu teria que desenvolver habilidades como aquela. Pessoas sorrindo, o agente dizendo que eu poderia curtir e aproveitar o fim de semana “bancado” pelo patrão, e em seu riso eu tentei agir como nos seriados que eu assistia, e Machado também sorria. E localizei “apro”-“tar”-“mana”-“trão”. Meu susto não foi maior do que o dele. Ao desligarmos os aparelhos seus olhos me encontraram e seu duro olhar foi de cinismo. Castro nada desconfiava, provavelmente ainda distraído com sua noiva.Eu entendi. Sorri numa inocente saudação aos dois. E continuei andando, passando por eles sem pressa para sair do prédio.Contornei o prédio roboticamente, meus sentidos em alerta total. Tempo de sobra pra sair do prédio ou me seguir. Retornei para o hall dos telefones públicos e aguardei.O telefone marcado ligou sozinho. Atendi. Uma voz fria, parecendo uma gravação, perguntando em italiano, respondi “pescaria” em espanhol. Então eles confirmaram que eu deveria estar pontualmente à meia-noite em um telefone público do Gran Canale, pra acessar o lugar onde eu tiraria fotos, coletando todas as descrições possíveis do traficante do Leste Europeu e seu grupo. Eu tentei avisar que identifiquei espionagem muito próxima de mim e que estava em extremo perigo, mas desligaram antes. Eram meus únicos contatos.Eu sabia que estava em treinamento como agente de campo em uma organização muito pior do que qualquer máfia, não poderia identificar ninguém ou seria descartada. Como um papel de bala, rapidamente, enquanto ainda se prova o doce. Entrei há pouco tempo e já havia descoberto um espião entre nós. Pouco tempo pra agir. Como um samurai, entendi que eu podia morrer. Preparar-se e agir.Eu nem tinha pisado em Veneza e já estava marcada pra morrer.Eu nem tinha feito sexo. À noite, horas antes de embarcarmos para Veneza, sorridente porque, na porta do quarto do meu chefe, afinal lhe entregava os dois relatórios prontos. Antes de morrer eu tinha resolvido um assunto! Faltava ainda o Alencar. Faltava o sexo, também. Arremessar minha virgindade no caixão, nada mais inútil. Mais fácil me resolverem por Veneza, um outro país, investigação sempre difícil, tantos mascarados no carnaval de Veneza, poderia ser qualquer um de qualquer país.
Na noite anterior à viagem, Alencar tinha me visitado, pra me dizer que me levaria ao aeroporto. Brincando muito sobre eu me perder em Roma e nunca mais voltar.Naquela hora, eu devia ter olhado pra ele.Eu tocaria no seu rosto e o empurraria pra cima da cama.Eu o beijaria com a voracidade de uma condenada.Então, agradeci, me despedi e fui arrumar a mala.
Alencar.
PRIMEIRA NOITE EM VENEZA
A considerar o frio na Piazza San Marco, fazia todo o sentido que as roupas usadas pelos mascarados fossem elaboradas em tantos panos. Tantos turistas, tantas fotos. Sobrados muito antigos, colados entre si, apertados como bons medievais que tentavam se aquecer, cada vez mais sufocados pelas marés que agora poderiam nos ameaçar com enchentes. E os gondoleiros com preços exorbitantes, roubando minutos da viagem, irritados por causa da barganha. Mesmo assim, tantos turistas. Estranho como o encanto de Veneza se esvaiu. Aproximação do momento súbito da morte? Mas comprei quatro pequenas taças do famoso vidro de Murano, se eu chegasse ao aeroporto no Brasil, elas reinariam na minha sala.E fomos almoçar, quando reconhecemos outros gurpos que haviam recebido a bonificação, equipes da europa, américa do norte e ásia. Uma bonita espanhola, Helena, cabelos, finas cortinas castanhas, esvoaçantes, olhos mergulhados em mel, seios animados sob uma camiseta transparente de tão fina. Tão expansiva e cativante, conquistando nosso grupo, tentando falar português carregado, com que tamanha rapidez sentando-se ao nosso lado. Conversa animada, todos seduzidos pela alegria de Helena: uma despedida suave da vida. Mas eu ainda não passava de uma “virgem inútil” no quesito “Diversões Terrenas Gerais”.À noite, muito frio, Dos Anjos nos alertando sobre o risco de furto na multidão e nos incentivando, como um alegre pastor entre ovelhas, a visitarmos a Piazza antes que alguma enchente nos tornasse manchete de jornais.À noite, nos palácios do Gran Canale, que divide Veneza em duas, os bailes luxuosos ainda aconteciam, para a elite italiana e de quem mais pudesse pagar uma entrada cujo preço eu não fazia idéia.Alguns turistas ainda mantinham o rosto da tarde, pintado como máscaras brancas e douradas. Mas para mim, o frio era irredutível, casaco estofado era como nudez, e o abraço do Alencar no aeroporto, e o abraço do Dos Anjos em Roma. Então morei dois meses em uma cidade grande. Então eu morreria virgem. E vi Veneza antes de ser totalmente engolida pelo mar.E entreguei dois relatórios pra empresa.Então isso resumiria tudo. Daí, Helena.
HELENA
Na rua, seu sorriso festivo abraçando a todos, “me pediu emprestada” à equipe. Disse quase em espanhol que Veneza não era pra solteiros, mas poderia ser muito divertida para duas jovens inteligentes. E ela me perguntando se eu já havia tentado barganhar com os gondoleiros. E rindo muito e sempre, me pagando uma taça de vinho para esquentar. Esperando. Que ela, espanhola, me passasse alguma senha sobre a atividade do tráfico de humanos. Nada. Ela continuava me perguntando obviedades doces. Frustrada com os riscos de um dos meus ofícios, enquanto olhava os carimbos no passaporte espanhol dela, eu ria e desabafara sem reservas que Veneza não trazia encantos para uma virgem. Ela sorriu.Vários mascarados da rua brincavam, rindo alto, a multidão multicolorida, um mascarado aparentemente perdido, todo de preto, parecia tentar rapidamente fugir da maré do amontoado humano, grudando suas costas em uma porta. 1,85-90m, máscara branca. A uns cinco metros. Olhava tudo ao redor.Em pé, como centenas de pessoas que se acotovelavam pelas ruas, em pé ela se aproximou do meu rosto, perguntando com admirável discrição se eu tinha certeza do que eu queria. Eu tinha, aliás. Concentrada na primeira taça de vinho escorrendo quente pela minha garganta, não reparei que seu braço começava a roçar pelo meu seio direito, enquanto sua mão subia como serpente, lenta e esfomeada para o meu rosto. Não consegui me mover. Com todo o meu treinamento profissional, eu era uma virgem. Como agir em certas horas? Gritar como uma virgem histérica em uma praça universalmente povoada? Ela percebeu meu pânico. E continuou a roçar seu braço no meu seio. Fechei meus olhos. Que sequência de radicalismo. Estava pra morrer, na minha primeira viagem internacional. Minha primeira e última vez seria com uma mulher? Não teria nenhum conhecido ali, a equipe decidira se fixar na frente do hotel. Se alguém me seguisse para um homicídio mais aproximado, seria difícil perceber.Então era relaxar. No máximo, morrer.Pessoas se beijavam na boca e continuavam a andar. Pensei em Alencar e na sua voz rouca. E aquele mascarado, olhando para todas as direções, preso na porta. Ridiculamente óbvio demais que fosse meu caçador. Óbvio demais. A terceira taça já fazendo efeito. Que calor era aquele que eu sentia? Helena era muito determinada do que fazia. Em público, discretamente, chegou a passear com seus dedos suavemente nas minhas costas, por debaixo da minha blusa. E ninguém na multidão teria visto. E, falando baixinho, me sugeriu que andássemos pela cidade, como verdadeiras fêmeas que éramos, como na Idade Média. E já que estávamos no mesmo hotel, não poderíamos nos divertir lá. Tentei dizer que não pensava jamais em me divertir com uma guria, nem saberia o que fazer. Ela me perguntando baixinho se eu pensava um dia em vir pro Carnaval de Veneza, ou se eu saberia o que fazer com um homem.
PESCADORES E PESCADOS
Pedi a quinta taça de vinho, enquanto Helena conversava com o dono do estabelecimento para ir ao banheiro. Quando a taça chegou. E o mascarado parecia olhar na minha direção. Pela “onda” do vinho, desejei ardentemente que fosse meu visitante. Alencar. E sorri pra ele, sabendo que, naquela noite movimentada, ele não iria ver. E a personificação veneziana do disfarçe começava a se mover.Atravessador longitudinal do cardume de turistas, aquela linda forma masculina, emprestando elegância a um terno completamente negro, caminhando com tanta convicção, não poderia ter visto o meu sorriso. Começei a beber com ansiedade. Ele não viria falar comigo. Eu nem saberia o que dizer, mal falo as primeiras frases do italiano. E estava cercada de gente conversando e bebendo, ele não tentaria nada. Parado na minha frente, ficou me olhando. Grandes olhos negros se divertindo na brancura da máscara, nenhum som. A taça na minha boca, engoli rapidamente o vinho italiano como se fosse minha última chance. Pus a taça na bancada. O pescador me olhando, convicto. Nem conseguia respirar, ele não iria atirar ali. Faca? Ele segurou minha mão. Quando eu olhei ao redor e vi Helena saindo do banheiro, ele acompanhou meu olhar e segurou meu ombro. Quando percebi, segurando minha mão ele me levava pro mar de turistas.
PESCADOR DE DEGRAUS
O vinho não era o bastante para um ato imbecil. Eu não havia visto ou ouvido nada que pudesse me atrair nele. Era minha escolha pra vivenciar as últimas experiências de um radicalismo inesperado antes do túmulo? No primeiro beco que atingimos, vários casais se beijando, ele morava na negrura total de algum tipo de corte moderno de terno, mas uma pesada capa negra, segurando minha cintura, ele me encostou ao lado de uma porta de madeira envelhecida pelos séculos. Sua luva de couro passando a mão nos meus cabelos. Seu silêncio era movido por olhos cheios de desejo, linguagem felizmente internacional. Perfumado demais para ser discreto, seria um maníaco? Deformado? Por que não podia ser o Márcio, por que não? Por que ele não pegou seu passaporte?Tirando do bolso, me mostrou. Uma chave. Parando pra me olhar, ele abriu a porta ao meu lado e fez uma reverência bem medieval, me convidando a entrar. Vendo minha hesitação, ele deslizou lentamente seu corpo nas minhas costas, enquanto, com a minha mão, ele acendia a luz da escada.Nunca, nunca senti nada igual.Medo. Tesão. Vontade de desafiar o desconhecido. Pagar pra ver se eu sairia viva.Milhares de anos de auto-preservação herdado dos meus ancestrais e eu pulverizava o meu DNA num único gesto. Fechei meus olhos.Agradeci a mim mesma por não gostar de beber, os efeitos do álcool daquelas taças em mim eram profundos agora. Agradeci a Helena, por começar o trabalho. Agradeci ao Alencar, por me lotar de um tesão que estava prestes a explodir. Agradeci ao dos Anjos, que pagava pela minha primeira noite de sexo. E o estranho trancando a porta, de costas pra mim. E eu, de costas pra escada.Sua máscara, olhada de perto, pintada em fragmentos. Com sua luva de couro, ele quebrava um pedaço que reunia parte do queixo e da boca, e o colocava na minha mão, e a fechava. Esse lirismo, repetido em todo carnaval?De costas pra porta, foi quando ele me abraçou, me guiando a subir cada um dos degraus atrás de mim. Lentamente, para que eu não tropeçasse, a cada degrau, subimos juntos em silêncio, meus passos incertos, ele abraçado a mim, me encarando com tanta convicção. A cada degrau. E um beijo. E outro. Sugando meus lábios, me mordia e se alastrava em mim, combustão. Nunca tinha sentido aquilo antes.Lá em cima, nada irreal, não era o quarto do Fantasma da Ópera, mas um cômodo pequeno e simples, móveis de madeira, tv, aparelho de som, provavelmente alugado para milionários em férias. Não era glamurosa essa cena, mas perigosa. Irresponsabilidade imperdoável a minha, me deixar guiar por um mascarado pelas ruas de Veneza. Irresponsabilidade que poderia custar minha reputação no emprego, minha integridade física, minha vida. Só que eu estava para morrer.Eu imaginava quantos pescadores mascarados não agiam assim para pescar peixes para o tráfico de escravas brancas que eu investigava. Se fosse esse o caso, nós dois não sairíamos vivos daquele sobrado. E eu olhei nos olhos dele, desafiante.
PERFUME
Ao lado do sofá, ele pegava minhas mãos com tanta determinação. E me lembrei de Helena, que iria perguntar para o grupo se eu havia chegado ao hotel. Alarde. Procura. Preocupação. As minhas mãos sendo coladas em seu peito. E as mãos dele deslizando pelos meus braços. Eu precisava ligar pro hotel. Não havia clima no mundo que me fizesse gerar tamanho problema em Veneza. Em italiano sussurrei as palavras “telefone” e “hotel”, sem saber que efeitos isso iria causar no conjunto da cena. As luvas de couro escorregando em baixo dos meus seios, subindo até o meu pescoço. Qualquer coisa poderia acontecer. Tráfico de mulheres, sociopata, qualquer coisa. Até um homem romântico tomado pela sedução veneziana. Nessa altura dos acontecimentos, qualquer coisa poderia acontecer.E beijando minhas mãos, ele me indicou o telefone preto que dormia em um canto escuro da sala.Ele acendia o abajur enquanto eu ligava nervosamente para o hotel. Deixando mensagem que eu iria demorar, e insistindo para ser entregue o mais rapidamente possível para o grupo. Eu lembrava dos quartos, dos nomes, cores e saudações em italiano. Vinho. Eu estava embriagada. Desliguei sem saber se descrevi meu epitáfio, não sabia, minhas mãos, derrotadas, apoiadas na mesinha, seu corpo masculino chegando por trás e entrelaçando suas mãos nas minhas, seu calor já atravessando minhas roupas, um golpe na cabeça? Alguém viria do quarto com uma nove milímetros? Ele era perfumado demais. Seria bom de cama? E o que é ser bom de cama? Eu não fazia idéia. Não conhecia parâmetros, procedimentos operacionais pro sexo. E morreria naquela noite. Talvez depois de um sexo com um estranho. Talvez antes.Agora seria fácil demais se livrar do corpo, minha irresponsabilidade não via limites, o vinho me mostrando como aquele corpo masculino me excitava. Minha blusa. Sendo levantada. De dentro. Da minha calça jeans. O casaco estofado como minha armadura macia, eu não sabia o que fazer. Quando minhas pernas se juntaram num movimento involuntário, ele parou. De costas, virei meu rosto pra ele, talvez eu olhasse com medo. E vi ele tirando sua luva direita com a minha mão. 1,85-90m, 85-90 kg. Pele bem clara. E perfumada. Alencar. Seria ele me pregando uma peça?E um outro pedaço de gesso agora ao lado do telefone, libertando uma boca desenhada à mão, lábios finos em cima e grossos embaixo. Avermelhados. E provocantes demais. Eu começava a adorar quando ele pegava minha mão pra fazer algo, e meus dedos agora passeando pelos seus lábios. Todas as gurias faziam isso? Eu nunca tinha feito isso. Seu rosto mascarado se aproximando. Eu olhava ao redor, tentando localizar alguma sombra em movimento, algum cúmplice.E senti seu beijo, era sobrenatural, lábios tão macios escorregando sobre os meus, eles me engoliam toda, sugavam meus lábios, será que ele faria isso em outras partes do meu corpo? E me mastigava, me olhou, minha fome tão visível? Passou a lamber o contorno da minha boca, lambia em mim todo o meu medo, todo o meu sentido de alerta, todo o meu treinamento. Foi quando entendi.


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Se a canoa não virar olê olê olá!